<i>Claraboia</i>

Ana Miguel

Claraboia não marca a estreia literária de José Saramago. Apesar do envio do texto a um editor, o aspirante a escritor não recebeu qualquer resposta, nem nesse ano de 1953 nem nos seguintes. O manuscrito ficou perdido e só veio a ser descoberto passados mais de trinta anos. Por vontade do autor voltou à sua posse, não o leu e não permitiu a edição em vida. Contudo Saramago afirma que contém «coisas que já têm a ver»1 com o seu «modo de vida»id. Passadas seis décadas sobre o envio ao editor, a história, numa leitura de A Barraca, é levada ao palco.

Exprimindo já uma posição de classe estruturada segundo uma forma social, Claraboia não retrata um tempo ficcionado, nem exibe personagens saídos de um guião sensacionalista de má ficção, antes aborda a realidade do atraso cultural e social em que o fascismo submergiu o nosso povo e o nosso País.

Nestes tempos em que poderosas produções servem ambientes de sofrimento, privação colectiva e heróis de pouca carne e osso, a brutalidade experimentada em cada quadro desta peça raramente é física. Vivida num passado recente e real que elevou o verbo proibir e violentou gerações nada tem de ilusório ou de produção sofisticada. A falta de progresso é sentida em todos os afazeres: as mulheres não podem viajar ou permanecer fora de casa sem autorização registada do marido, as cartas anónimas e acusatórias são lei, as palavras cuidadosamente escolhidas nas conversas e nas páginas de um diário, o lixo levado em carroças, a humilhação do chefe de família sobre a mulher ou a filha, o arrendamento de um quarto para viver, o ordenado que não chega, a mulher violentamente acordada pela investida animal do marido, o perigo de cada um saber da vida dos outros, e a raridade de possuir um telefone. Homens e mulheres trabalhadores, como nós, todavia vergados e feitos à força de um poder exercido pelo roubo do sonho e da confiança.

Tal como o rio incontido pelas margens, a acção transborda do prédio e atinge-nos. Necessitamos de a aguentar na brutalidade dos acontecimentos sucessivos para aproveitarmos o conteúdo multidisciplinar desta peça. Ainda que não tenhamos vivido os quarenta e oito anos fascistas, ainda que alguns permanentemente silenciem e reescrevam a História, nada do que Claraboia apresenta é artificial.

O fascismo foi poder exercido. Existiu nos seus modos medonhos de existir que proibiram palavras, risos, carícias e crescimento mas não impediram a coragem de pensar e de lutar. No desassossego a que Claraboia nos leva relacionamo-nos com tudo e encontramos pontas preciosas a contornarem essa proibição seja no livro emprestado pela biblioteca pública levado para casa embrulhado em papel e atado com cordel, na sexualidade que deixa as páginas deste livro para ser descoberta, nas mulheres que enfrentam o mando do marido e a perversão do patrão ou na audição quase em surdina da Nona de Beethoven que celebra a fraternidade dos povos.

Cada personagem destaca-se do conjunto, marcado por relações que não estão alheadas de interesses, dúvidas e tendências, e aborda distintamente cada assunto. Apesar de não ficarmos indiferentes a quaisquer dos actores, seguimos o sujeito colectivo representado pelo sapateiro Silvestre. A decisão tomada juntamente com a mulher para o arrendamento de um quarto leva Abel ao seu encontro. Ao ouvi-lo queixar-se do conforto perdido, do gasto do dinheiro amealhado até aos 16 anos, que só a vontade de ser independente o leva a trabalhar e a viver em quartos alugados, Silvestre contrapõe-lhe e justapõe-lhe a indubitável diferença entre a vida imposta por outros e a vida escolhida por cada um. Nas conversas mantidas com o inquilino conta-lhe da aprendizagem forçada do ofício e do tempo em que trabalhou numa oficina junto de outros sapateiros. Um tempo que não foi passado apenas a abrir buracos com a sovela e a pregar protectores em solas rombas mas que o arrancou à individualidade da condição imposta. As suas palavras objectivas e simples erguem-se imponentes dessa raiz dos dias de ganho ideológico em que a realidade imposta determina a partilha da consciência de classe dos produtores contra a consciência de classe dos detentores. Silvestre não receia apontar com hostilidade estes últimos por os capitalistas. Sentimos a perplexidade de Abel. Mas o sapateiro leva avanço, quer ao jovem estudante, quer à engrenagem sufocante. A fome, a miséria, a aprendizagem do ofício em lugar da imaginação, da brincadeira, dos livros e da progressão escolar, foram-lhe impostos desde cedo, contudo, o fascismo em lugar de diminuir, estagnar ou aniquilar a sua estrutura humana histórica, ampliou-a junto dos homens.

As conversas de fim de tarde fazem crescer a amizade entre os dois, reforçada pelo pedido do inquilino para uma partida de damas e o copinho de ginja oferecido pelo sapateiro. Sem precisar de muito, valendo-se do que é apresentado, Silvestre desperta Abel (e desperta-nos também) para a natureza das contradições históricas e o que faz para as aniquilar.

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1.id. Do folheto que acompanha a peça Claraboia.

 



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